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sábado

Passinho, Diplomacia do Funk.

Algumas manifestações culturais no Rio mais parecem lutas de resistência.
Se por um lado a crítica esculhamba com a cultura popular, por outro, em muitos territórios, inclusive favelas, essas manifestações não são compreendidas ou totalmente aceitas.

Essa semana, notícias que chegaram da morte de 6 adolescentes supostamente por outros jovens pertencentes à facção criminosa que dominava o local onde eles se divertiam, fez uma pá de gente lembrar que no Rio ainda existem linhas divisórias, além das conhecidas, por vezes as mesmas de sempre, mas veladas, e que no fim de tudo impedem o trânsito de pessoas e da cultura que elas trazem consigo.

Conversei essa semana com um jovem, Walney, ex-morador da Vila do João, hoje professor de teatro. Ele lembrou que quase foi agredido num ônibus na Av. Brasil, por um grupo de jovens da Nova Holanda, anos atrás. Tem isso. Você é de uma favela, não pode entrar na outra, se as facções não se falam. Parece ter sido essa a motivação das mortes dos adolescentes na Chatuba.

Tem um filme, do Cadu Barcellos, se não me engano, que aborda exatamente isso. "Deixa voar", integra a obra 5xFavela: Agora por nós mesmos, de Cacá Diegues, Rafael Dragaud e cia.

Mesmo com a proclamação diária da gloriosa pacificação no Rio, muitos jovens não transitam entre as favelas. Walney me contou que, no tempo dele, tinha uma manha de reconhecer quem era de onde até pelos gestos, modo de falar, gírias. Não vi, por todo lugar onde ando, nenhuma ação integradora entre os territórios ditos pacificados. 

Mas a cultura pode fazer isso, P2P. O Passinho, mais que uma oportunidade de negócios e deixar a Coca-Cola boazinha na foto, é na verdade um discurso diplomático entre "eles", os jovens. Converse com dançarinos. Todos identificam primeiro de onde vieram, e aí sim, o nome, o que dançam, que valores trazem, como podem somar.

Diplomacia. Viemos em paz. Viemos com cultura.
Dias atrás, conversando com alguns jovens dançarinos, eles disseram que na Baixada ainda existe preconceito com dançarino. São chamados de viados, de bichas, que na Baixada tem resistência inclusive dentro da favela, e em alguns casos de traficantes.

Ou seja, não tá fácil pra cultura popular.

Contraditória situação, onde a dança chega em Londres, mas, logo ali, é reprimida, ignorada ou simplesmente desclassificada, seja pela intelligentsia, ou pelas secretarias de cultura do Rio, que socam milhões em projetos de artistas leblonenses mas se recusam a reconhecer e incentivar o funk.


Familia do Passinho.




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