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quarta-feira

Cortina de Fumaça.

Era início da noite e eu conversava com Robson, responsável pelo ferfil do @NovoComplexo do Alemão, no Twitter, quando surgiram as primeiras notícias, através do @VozdaComunidade,de Rene Silva e equipe, e de @JJAfroReggae, perfil de José Junior, sobre os sons que, a princípio, foram considerados fogos de artifício.

Logo em seguida, tweets passavam a informação que eram, de fato, tiros. Por cerca de 20, 25 minutos outros perfis de moradores e movimentos sociais no Alemão confirmaram que havia um tiroteio cada vez mais intenso e chegava também a notícia que a Av. Itararé estava fechada, focos de vandalismo na Grota, pânico, soldados do exército se mobilizando em direção a Itararé, blindados do BOPE e muitos tiros.

Não se tinha muita certeza de quem estava perto do quê, que pudesse passar informações em série, ordenadas, cobrindo os acontecimentos, mesmo porque o fato tomou a todos de surpresa. Não há de se esperar que Rene Silva ou qualquer outro morador que utiliza as redes sociais no Alemão saia de casa para reportar os fatos uma vez que eles estão do lado de dentro da linha de fogo.

Usei o telefone para localizar outras pessoas em outros pontos do Complexo e a cada nova informação fui contemplando um quadro que parecia sinalizar para o fracasso absoluto da ocupação.

Ninguém absolutamente sabia dizer com clareza de onde partiam os tiros e menos ainda quem os efetuara.

As informações se repetiam a tweets do tipo "novo tiroteio e bombas nesse momento."

Aproximadamente uma hora depois das primeiras informações, já se podia encontrar uma cobertura ao vivo da Band FM e de uma equipe da Record. Já ream quase 8 da noite e, no Jornal da Band, foi exibido um vídeo de supostos traficantes no Complexo em atividade numa boca de fumo e no JN, quase duas horas depois do início do conflito, foi noticiada uma informação de que estava ocorrendo intenso tiroteio.

Não estava sendo fácil apurar informações. Os comunicadores da favela estavam em suas casas, pois foram surpreendidos com os tiros, precisavam estar local seguro. Do lado de fora da favela, ruas interditadas, cones do exército em vias principais, tornava o acesso de qualquer equipe de reportagem ao local mais demorado.

Era uma estratégia de isolamento da área e a impossibilidade de se registrar o que estava acontecendo, com imagens, com indicação das ruas, dos focos de conflito, de quantos homens estavam envolvidos e quem eram esses homens.

Esperei até 9 da noite para sair de casa, com uma amiga, e fomos de carro para as imediações da Estação de Bonsucesso, rodando até a Estação de Ramos observando as pessoas paradas em bares, procurando por informações na TV ou rádio, nos pontos de ônibus, muitos comentários e boatos, inclusive de que o Fabiano Atanásio, o FB, estaria no alto da Grota e a operação seria para capturá-lo. Vários ônibus mudando trajeto e outros motoristas aguardavam alguma informação sobre o que fazer.

Moradores do Alemão que chegavam do trabalho e de outros compromissos procuravam por informações que lhes desse alguma segurança. Já eram quase 10 da noite e ainda se ouviam tiros. Além disso, balas traçantes cruzavam o céu, tiros para o alto, que dava pra ver da passarela em Bonsucesso.

Mais viaturas da polícia passavam e a sensação de que a noite seria longa. Pelo twitter, soube que Raull Santiago, coordenador executivo do grupo Descolando Idéias, estava cobrindo o conflito, de moto, pela comunidade. Marcamos de nos encontrar em Bonsucesso. Eu não iria sozinho, levaria ainda mais outra pessoa, ligada à uma ONG de Direitos Humanos, que não apareceu.

A bateria do notebook acabando e subimos para a Itararé para pelo menos passar no local. Barricadas, cones, caminhões do exército, carros da PM, soldados revistando moradores, comércio fechado e clima tenso. Após uma hora circulando na Itararé, já por volta de meia noite, não havia mais tiroteio e não me sentia seguro para entrar na comunidade e registrar imagens, decidi voltar.

Soube que um balanço parcial dava conta de 16 feridos e um adolescente de 15 anos morto com tiro na cabeça.

Não se tinha uma idéia do tamanho real dos fatos ou das consequências.

Pouco se soube com clareza o que acontecia, mas podemos e devemos, nessas horas, trabalhar com as hipóteses do que não aconteceu - ou não deveria estar acontecendo, levando em consideração o que temos acompanhado no dia a dia: o histórico da ocupação, o episódio de domingo, a ordem dos fatos, o vídeo de supostos traficantes, os tiros para o alto e a nota do exército.

1. A ocupação do Alemão pelas Forças Armadas expulsou os traficantes e desarmou o Complexo. Essa é a versão do governo. Essa é a versão que foi transmitida pelos principais meios de comunicação. Após a expulsão dos traficantes, as tropas tomaram todos os pontos principais de observação da favela, realizaram policiamento ostensivo nas ruas principais, partiram à procura de drogas e armamentos, prenderam pessoas, invadiram casas (não havia mandado), mapearam a comunidade e, espera-se do mais ingênuo observador ao mais técnico, que qualquer análise sobre a ação dos militares resulte numa circunstância de controle da situação, qualquer controle, considerando que antes da ocupação não havia nenhum.

Aqui reside a primeira questão. Talvez um erro do governo, do exército. Da agência de publicidade que fez a campanha com bandeira branca no alto do morro. Se eles desarmaram o Complexo, a probabilidade de existirem bandidos, traficantes, em atividade ou não, armados com metralhadoras e armas de grosso calibre e com munição traçante, dentro de um perímetro ocupado por três Forças militares federais, e que esses traficantes, por um motivo qualquer, ou por um surto psicótico coletivo, decidam ir para o meio das ruas da favela disparar tiros na hora de maior movimento porque estão convencidos que, nunca antes na história desse país, estiveram tão preparados para enfrentar o contigente militar, é uma insanidade absoluta, e ao mesmo tempo, se isso fosse verdade, seria o atestado de incompetência do exército que permitiu uma nova entrada de armamentos ou pior, sabia da existência desses armamentos e não os retirou da mão dos traficantes, como deveriam e foram colocados lá para fazer, por completo. Mais ainda, sabiam da existência de traficantes armados e, mesmo sabendo, não fizeram absolutamente nada para evitar que a situação chegasse a esse ponto. Se o único trabalho das tropas é evitar que haja outro grupo, além deles, armado, dentro da comunidade, e que esse grupo estabeleça novamente o o terror do tráfico, e se o que ocorreu na noite de 6 de setembro foi exatamente isso, concluímos que o exército brasileiro é um amontoado de incompetentes filisteus.

2. O episódio ocorrido num bar, domingo á noite, dois dias antes desse episódio, onde foram registrados, em vídeo pelos moradores, os excessos cometidos pelas tropas militares que no dia seguinte tentava-se justificar dizendo que eles são preparados para guerra e, por isso, podiam agir como bichos. Declaração que nos faz pensar se as Forças militares são realmente instiruições ordeiras. Esse episódio reprimiu, segundo a imprensa, pessoas que estavam num bar assistindo uma partida de futebol através de um aparelho televisor  em volume máximo, e acompanhavam  em altos brados, incomodando os vizinhos. Tal atitude dos moradores justificou os balaços de borracha, o spray de pimenta e o deslocamento de quase 100 homens fortemente armados que se dirigiram violentamente contra moradores, resultando em feridos e uma mulher atingida na boca pelos militares.

O segundo erro nem é, e deveria ser, o fato isolado. Mas, a questão é mais profunda. Em todas as áreas ocupadas, os moradores são vigiados e controlados em sua liberdade de ir e vir pelas tropas, festas e encontros devem ser antes notificadas por escrito ou verbalmente e autorizadas pelo comandante da área. Até mesmo festas em residências precisam ser informadas. Algum sociólogo saberá que nome dar a isso. Mas o Alemão, ou as áreas ocupadas, não são áreas de guerra declarada, na forma da lei, não são campos de concentração, não há dispositivos legais, constitucionais, que admitam a privação das liberdades individuais nos casos de ocupação policial ou militar senão em períodos de guerra ou, como já conhecemos, em casos excepcionais, como os que aconteceram na ditarura. O erro das ocupações é criminalizar o morador. Criminalizar sua liberdade, seu direito de ir e vir para qualquer outro lugar que não seja o trabalho ou a escola, criminalizar sua cultura, suas reuniões, suas festas e manifestações coletivas. Não há articulação eficiente nessas áreas e, mesmo que agora haja, muitas marcas já foram feitas na memória e na vida dos moradores. O erro é tratar as áreas ocupadas, já excluídas, como áreas de exclusão. Daí, estranho seria se os moradores abaixassem a cabeça para os soldados que desligaram na marra a tv no bar. Estranho seria um vídeo em que os moradores não reagiriam, nem sequer uma palavra, diante da ação do exército. E voltassem todos para suas casas, calados. Isso seria, no mínimo, assustador. Mas, como não foi isso que aconteceu, é possível que a tropa tenha protestado internamente, baseada no argumento de que fora desmoralizada publicamente. Conhecendo o espírito-porquismo do exército brasileiro, como conhecemos, de não "levar desaforo pra casa", porque são machos, seria pouco provável que o episódio de domingo ficasse por isso mesmo.

3. Nessa mesma linha, considerando então a incompetência do exército em deixar bandidos armados até a boca dentro da favela, a relação nenhum pouco afetiva com a comunidade nesses últimos 8 meses, prorrogados até 2012, e a "desmoralização" da tropa pelo povo no bar domingo à noite, já podemos ter uma idéia de como esse fato de 6 de setembro está relacionado numa cadeia de acontecimentos, orquestrados ou não, frutos de uma série de infelizes ações do Estado.

Na hora do rush, todos voltando para casa, o exército fecha ruas e inicia-se forte tiroteio. Do nada. Ninguém viu movimentação de bandidos antes, não houve relato de nada anormal na comunidade durante as 2 horas que antecederam o tiroteio, a menos que, e pode ser isso que o exército quer que pensemos, todos na favela estão macomunados com bandidos e por isso não relataram a ação deles.

Tiroteio em favela é algo que o morador aprende a identificar antes que aconteça, assim como chuva. Todos que já moraram ou moram em favela sabem que um tiroteio não começa do nada. A movimentação nos 30 minutos antes de um conflito é vista por muitas pessoas e essa informação corre, cifrada, por toda favela, numa velocidade que rede social nenhuma reproduz. É impossível acontecer um evento desse porte na favela sem que a informação tenha sido transmitida para alguém, ou alguns. Mesmo os bandidos, e principalmente eles, no Alemão e em outras comunidades, soltam a informação que vai ter confronto. "Atividade aí." Basta dizer isso, e todos se mobilizam, como se fosse o aviso de um furação. Isso, de fato, não aconteceu. Os tiros surgiram. A ordem dos fatos pareceu programada por alguém que sabia do impacto que essa informação teria na mídia e principalmente na comunidade, gerando pânico.

Ninguém está acusando o exército de ter programado os fatos. Os fatos é que se mostram, todos eles, atípicos, para uma ação de bandidos. Aliás, bandidos, se é que existem e portam armas no Alemão, uma vez que o exército está lá, blá, blá.

4. No dia anterior, no horário próximo ao tiroteio, foi exibido um vídeo revelador, feito pelo exército, (que, como força de pacificação tem sido um ótimo videomaker), mostrando supostos traficantes, vendendo drogas, supostamente no Alemão. Traficantes sem o habitual bigode, sem armas, todos de camisa, de costas pra câmera e o único que está de frente aparece com um providencial boné, e comprando drogas passadas de mão em mão que, na verdade, poderiam ser chiclé de bola, uma vez que não é mostrado o que eles tem na mão. É tanto "supostamente" no vídeo que é possível inscrevê-lo num festival de curtas na categoria ficção. E é uma tentativa do exército em embasar seus argumentos, o principal deles, de que havia bandidos no Alemão. Terrivelmente armados. Contra os quais ele, exército, foi bravio e heróico.

5. Quem pode explicar a sequência de tiros para o alto, a esmo, exibidos no vídeo feito por um morador? Quem o quê queria atingir o responsável pelos disparos? Qual a estratégia, observando os princípios da física, tinha o atirador ao mandar bala para Vênus? Bandidos atiram para o alto sabendo que estão cercados por homens armados em terra?

6. A nota do exército foi feita por algum comediante. Daqueles ingleses, com humor mesquinho. Diz que houve sim a troca de tiros, que traficantes atiraram contra homens do exército, etc, etc, e teremos que considerar a fúria e loucura criminosa, a existência de armas a incompetência do exército, os traficantes atirando para o alto porque perderam os óculos, etc.

Mas, é uma nota do exército, poxa vida. Agora sim, a sociedade sabe de verdade o que aconteceu. O exército não mente. Nunca mentiu. Nunca emitiu notas delirantes. Segundo as notas do exército, Herzog se matou, Dilma é terrorista e a revolução de 64 foi um sucesso.


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