Páginas

segunda-feira

Na brincadeira sinistra de polícia e ladrão.

Tenha certeza, não foi por falta de aviso.
Em algum momento, as falhas no processo de ocupação iriam aparecer.
O comando inteiro de policiais uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Rio foi afastado por receber dinheiro, todo mês, para permitir a venda de drogas e a presença do tráfico na comunidade que ocupava.
Seguindo o senso comum, poderíamos agora denominar, um por um, os culpados por isso. Alguns diriam que a culpa é dos policiais. Outros que é falha do governador. Outros ainda que a culpa é dos traficantes e também dos usuários, o discurso que eles financiam o tráfico, etc.
Não se trata de eleger um culpado. Nem somente o governo é culpado, porque paga o pior salário de policial militar do país, porque instalou UPPs em condições precárias de trabalho como já foi mostrado inclusive em reportagem feita com Cecilia Olliveira, porque realiza ocupações sem planejamento algum sobre intervenções sociais, culturais, ou de desenvolvimento econômico local, fato que o que o próprio secretário de segurança José Mariano Beltrame já declarou, informando ainda que a UPP, do jeito que está, não vai resolver os verdadeiros prolbemas. Nem somente a polícia é culpada, essa polícia, a que mais mata no mundo, de criança a Juiz de Direito, mal armada, mal preparada, com uma cultura de corrupção entranhada na hierarquia da corporação desde a década de 50, e ao mesmo tempo formada por funcionários públicos, especialistas em segurança, que gostariam muito de ser mais valorizados, respeitados dentro do Estado, com a dignidade e remuneração que esse tipo de função tem em várias outras cidades. Nem o tráfico é culpado sozinho. É de se esperar que o bandido seja corruptor, ofereça as motivações para o desvio de conduta. Mas as questões sobre as drogas devem ser tratadas como assunto de saúde pública, essa discussão é ampla, se traficantes vendem, há quem compre, mas essa questão é resolvida apenas numa esfera que está além das fronteiras do Rio.
No meio dessa discussão, apenas uma pergunta me faço: Como ativistas podem ter segurança de trabalhar em comunidades ocupadas em parceria com órgãos do governo, policiais da UPP em parceria com seus projetos? Como identificar os bandidos dentro da polícia? Porque bandido é fácil de se identificar, afinal, ele fala, anda e se veste como bandido. Policial se veste como policial, fala como policial, anda como policial, mas pode ser bandido também.
Hoje, para muitos ativistas nas favelas cariocas, é mais simples trabalhar em áreas dominadas pelo tráfico do que pela polícia, pela pura e simples visualização de quem é quem.
A matéria do jornal carioca O Dia, abaixo, nos apresenta os fatos e o afastamento de todo comando da UPP. Imagine você que não é apenas uma troca de policiais para "limpar" a corporação mas uma perda significativa da pouca credibilidade que a polícia tem nas comunidades.
Uma perda que não será quantificada, mas sentida.
Faltam 996 dias para a Copa do Mundo.
Anderson França

O DIA - Após denúncia de 'mensalão', comandante de UPP é afastado


POR FRANCISCO EDSON ALVES

Rio - O comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, e o chefe do Comando de Polícia Pacificadora, coronel Robson Rodrigues, anunciaram na tarde deste domingo o afastamento do comandante e do subcomandante das UPPs da Coroa, Fallet e Fogueteiro, capitão Elton Costa e tenente Medeiros. De acordo com Mário Sérgio, todos os policiais envolvidos no escândalo de corrupção serão afastados, além de outros por razões administrativas. "O único caminho que vejo para os policiais envolvidos neste esquema é a porta da rua", afirmou durante coletiva realizada no gabinete do comandante-geral, no Centro.

Coronel Mário Sérgio (D) anunciou afastamento de comandante da UPP | Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia
O coordenador das UPPs, coronel Robson Rodrigues, disse que em menos de uma semana toda a investigação da PM sobre o caso será concluída. “Na maioria das vezes as investigações começam com denúncias. O subcomandante e o comandante serão afastados, mas isso não significa que eles estejam envolvidos no esquema. É apenas uma conveniência. Na verdade, essa é uma das primeiras medidas administrativas que serão tomadas”, afirmou Rodrigues.
Reportagem exclusiva de O DIA publicada neste domingo mostrou que a UPP do Fallet estava no caderno do tráfico. Criada para colocar um ponto final no domínio do crime organizado nos morros do Catumbi, a unidade se rendeu ao dinheiro das drogas. Um grande esquema de corrupção foi descoberto na unidade, onde propinas fixas são pagas regularmente pelos traficantes a policiais. O mensalão da UPP abastece os agentes com quantias que variam de R$ 400 a R$ 2 mil e no mês totalizam mais de R$ 53 mil.


Trinta homens da unidade são investigados por envolvimento no caixinha do tráfico. Eles foram monitorados durante um mês por policiais da Coordenadoria de Inteligência da PM. Terça-feira, três agentes foram presos pela Corregedoria — um sargento e dois soldados. Com eles, no carro, havia R$ 13,4 mil. O dinheiro estava em envelopes, que continham valores entre R$ 100 e R$ 500 e o nome dos policiais.

Pacificação chegou ao Catumbi, mas investigação mostra que grupo fez acordo com tráfico| Foto: Léo Corrêa / Agência O Dia
VALORES DIFERENCIADOS


O valor das propinas era fixado de acordo com a patente e a importância do agente na estrutura do policiamento. Durante a apuração, os policiais do Setor de Inteligência descobriram que no dia de plantão dos investigados não havia repressão ao tráfico. Os bandidos agiam livremente e vendiam drogas nos principais becos das favelas da Coroa, Fallet e Fogueteiro. Mas sem ostentar armas.
A unidade pacificadora do Catumbi tem 206 policiais e a possível ligação com as propinas do tráfico atinge 14,5% do efetivo. O comandante e o subcomandante da UPP — capitão Elton Costa e tenente Medeiros — também são investigados sobre o ‘mensalão’, que teria o sargento detido terça-feira como operador do esquema.


Seria ele a pessoa que aparece nas investigações negociando com traficantes a retirada dos PMs das áreas onde há venda de drogas nos morros e os valores da propinas. Inquérito Policial Militar, aberto no Comando da Polícia Pacificadora, será analisado esta semana pela juíza Ana Paula Pena Barros, da Auditoria da Justiça Militar, que decidirá se decreta a prisão dos PMs.


Intervenção e 30 policiais investigados afastados


O Comando de Polícia Pacificadora, que participa da investigação, resolveu na quinta-feira intervir na UPP da Coroa, Fallet e Fogueteiro. Os 30 policiais investigados pela Corregedoria da PM foram afastados, conforme a publicação no Boletim da Polícia Militar, e destacados ao batalhão de origem. Todos são recrutas e foram selecionados no ano passado por unidades do Interior do Rio (Itaperuna, Macaé, Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis).


Os policiais estavam lotados na UPP Coroa, Fallet e Fogueteiro desde a inauguração da unidade, no dia 25 de fevereiro deste ano. A ideia de selecionar homens novos na carreira policial e do Interior era justamente para impedir a contaminação dos agentes com esquemas de corrupção do tráfico de drogas. Eles serão substituídos, agora, pelos novos recrutas que estão sendo formados pelo Centro de Aperfeiçoamento de Praças (Cefap).

Vítimas de atentado estava fora de esquema



A investigação do envolvimento de PMs na caixinha do tráfico levou à descoberta de que o atentado a três agentes, em junho deste ano, não foi mera coincidência. Lotados na UPP, eles estavam fora do esquema do mensalão das drogas e, em todo plantão, faziam exatamente o que se espera de um policial: tentavam prender os criminosos.


A ação dos PMs irritou os bandidos, que resolveram dar um corretivo em quem insistia em se ausentar do caderninho do tráfico: jogaram uma granada no momento em que os três agentes patrulhavam os becos do Morro do Fallet. O soldado Alexander de Oliveira foi atingido na emboscada e perdeu parte da perna direita e teve fratura do braço esquerdo. Outros dois PMs foram atingidos por estilhaços.


O trabalho dos agentes da Coordenadoria de Inteligência mostrou que nem todos os policiais da UPP estão envolvidos no esquema de corrupção. Mas um bom número de homens sabia da ligação de alguns colegas com os traficantes. O sargento e os soldados presos na terça-feira alegaram na 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) que os R$ 13,4 mil encontrados com eles no carro não era de nenhum deles. E nem sabiam o que faziam os nomes dos agentes nos envelopes.


Controle do tráfico na cadeia


O tráfico nos morros do Catumbi é controlado por Valquir Garcia dos Santos, o Valqui. Dono de uma extensa ficha criminal — são 17 anotações —, ele é foragido do Instituto Penal Ismael Pereira Sirieiro, em Niterói, de onde saiu pela porta da frente, em fevereiro do ano passado.


O traficante ganhou o benefício da visita periódica ao lar, após ser preso, em 2005, ao ser baleado numa troca de tiros com policiais quando mantinha uma família como refém. Enquanto esteve preso, Valquir dos Santos mostrou que seu poder vai além das grades: determinou o fechamento do comércio na região do Catumbi, em luto pela morte do irmão, Valcinei Garcia dos Santos, o Caê, que foi morto pela polícia.


Toda a quadrilha responsável pelo tráfico de drogas está identificada no inquérito aberto da 6ª DP (Cidade Nova) pelo delegado Luiz Alberto Andrade e com prisão decretada pela Justiça.


Números


R$ 13.400
Valor apreendido no carro com três policiais que foram presos, após investigação. Envelopes tinham nomes de PMs


14,5%
Percentual do efetivo — de 206 policiais militares que atuam nos morros da Coroa, Fallet e Fogueteiro — que estaria comprometido com traficantes para recebimento de dinheiro


R$ 2 MIL
Valor a que chegavam as quantias pagas a cada policial para fazer vista grossa para a atuação dos traficantes. Esquema foi descoberto depois de três meses de monitoramento

Nenhum comentário:

Postar um comentário